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Hélio Gracie.
por: Marucha Daniotti - foto: Oscar Daniotti.
Polêmico como sempre, aos 92 anos, o criador do Gracie Jiu-Jitsu rememora os primeiros dias da arte suave no Brasil e faz colocações fortes com a coragem que lhe é peculiar.
Revista Faixa Preta: Como o jiu-jitsu foi introduzido no Brasil?
Hélio Gracie: Meu irmão Carlos, no Pará, foi aluno do japonês Conde Koma, amigo do meu pai que era uma pessoa influente e, por sua vez ajudava o japonês, que por gratificação dava aulas de jiu-jitsu para meu irmão. depois que meu avô morreu e minha família veio para o Rio. Foi assim, que o Carlos começou a dar aulas na rua Marquês de Abrantes, onde foi a primeira academia, em 1925.
RFP:O senhor se considera um bom observador?
HG: Bom, isso eu sempre fui. Tudo o que eu aprendi na vida eu aprendi observando. Por isso eu não dou aula para ninguém com alguém assistindo, porque eu acredito mais em que vê do que em quem faz. De maneira que, confiando nisso, eu passei a fazer a coisa com perfeição. E fui descobrindo as alavancas que todos nós temos. A necessidade que fez isso. Quer dizer, eu não fiz por inteligência e nem genialidade. Os japoneses acham que sou um gênio. Mas não sou nada, sou até burro em certas horas.
RFP: É possível pensar no movimento no momento de aplicar um golpe?
HG: Não dá para pensar, eu tenho reflexo, que tem uma boa velocidade. O reflexo é desenvolvido com a repetição. Eu faço isso há 80 anos. Não há indivíduo no mundo que tenha os meus reflexos.
RFP: O senhor lançou o nome Gracie Jiu-Jitsu, mas o esporte tem ramificações.
HG: O nome que nós demos é justamente para diferenciar o Brazilian Jiu-Jitsu que todo mundo anuncia. Claro que todos que aprenderam jiu-jitsu, no Brasil, foi por meu intermédio, porque começou comigo. Mas se referir a Brazilian Jiu-Jitsu não é o nome certo, pois esse nome é, justamente, de quem não aprendeu comigo (risadas). O Gracie Jiu-Jitsu, no mundo inteiro, é uma arte marcial nova, compreendeu? O meu jiu-jitsu não é de competição. Eu não criei o jiu-jitsu para competir. Eu nunca competi, eu briguei. Eu provei ao mundo que, brigando, dou em qualquer um e lutei com lutadores que pesavam até 60 quilos a mais que eu.
RFP:Como foram os desafios que o senhor fez para provar a eficiência do jiu-jitsu?
HG: Eu sempre tive o temperamento belicoso. O que acontece é o seguinte: eu via um cara famoso e desafiava. Eu queria pagar para ver, compreende? Eu queria saber se era ou não era. Eu desafiava o sujeito não, necessariamente, por estar contra ele e sim para me testar.
RFP: Como era naquela época a divulgação da imprensa em cima do Hélio Gracie?
HG: Eu fui o homem mais famoso que esse país já produziu. Nunca houve, no Brasil, alguém que tivesse a minha projeção. Eu fui a pessoa que mais saiu na primeira página do jornal O Globo em um retrato inteiro. Nunca alguém havia conseguido isso. Para comprovar o que estou falando, é só verificar no museu que meu filho criou, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
RFP: Como era a ligação do público brasileiro com o Hélio Gracie?
HG: Naquele tempo a Av. Rio Branco, por exemplo, era mão dupla. Quando eu saía, na rua, parava o trânsito. Na época, nem me lembro se eu gostava ou não, só sei que não podia fazer nada sem ser visto. Hoje, em qualquer lugar do mundo que eu vá acontece isso. Os fotógrafos ficam em cima. Mas eu não posso fugir disso. A natureza me deu essa projeção e não posso me furtar a aceitar toda essa chateação, senão viro besta, fico antipático, presunçoso e vaidoso.
RFP: Como surgiram, no exterior, as primeiras capas de revistas?
HG: Como fiquei muito famoso, no Brasil, os campeões e lutadores de outros lugares vieram para cá lutar comigo. Eu nunca saí do país para lutar.
A fama que a imprensa brasileira me deu era tanta que acabou atraindo os adversários. Quem aparecesse aqui eu desafiava; não perdoava ninguém. Esses desafios acabaram me projetando lá fora também, atraindo a atenção da imprensa internacional.
RFP: A respeito da luta com o Valdemar Santana, como ocorreu esse desafio?
HG: Como o cara (o jornalista) botou na boca do Valdemar Santana que eu não era grande coisa, eu o desafiei no dia seguinte. Ele aceitou, e mesmo resfriado, lutei. Nem pensei no fato de estar doente ou não, isso pouco me importou.
Subi no ringue brigando, a luta durou 3h45. Foi a luta mais longa da história do mundo. Ele pesava 30 kg a mais que eu. Depois dessa luta, a academia Gracie recebeu 125 alunos novos, impressionados com o fato de como um cara magro, com o meu físico, conseguiria brigar durante tanto tempo.
RFP: Quando o senhor começou a seguir essa alimentação que faz até hoje?
HG: Desde os 18 anos, pois o que acontece é o seguinte. Há um ditado que diz “O homem é o que come”. A primeira coisa que todos fazemos ao nascer é comer. A humanidade toda come o que gosta e eu não como o que gosto e sim o que faz bem. Se esse pode ser o segredo da longevidade, também pode ser o da boa saúde. Quando se come uma bobagem, o organismo precisa realizar um tremendo esforço para eli-minar essas extravagâncias e assim vai consumindo energia.
RFP: Como eram os primeiros lutadores, da família Gracie, que surgiram depois do senhor?
HG: Havia o Carlson. Ele adquiriu muita projeção, pois na época eu já tinha uns quarenta e poucos anos e automaticamente ele estava começando. Ficou até com a fama de que era melhor que eu, depois que fez uma luta com o Valdemar e venceu. Durante esse tempo todo a família cresceu e o mais novo acaba sempre ocupando o lugar do mais velho, continuando a invencibilidade da família Gracie.
Carlson quando lutou com Valdemar, o venceu facilmente. Lutou com saúde, mais novo e sabendo jiu-jitsu. O Rickson, o Royce, o Royler têm filhos que já estão pegando eles, futuramente serão os seguidores do nome Gracie, na parte de eficiência competitiva.
RFP: O que o senhor acha da projeção adquirida pelos lutadores brasileiros no exterior?
HG: Todos eles têm noção de jiu-jitsu e por isso conquistaram todo esse sucesso. De qualquer forma, são bastante fortes também. Você (Oscar), com a sua força, amarrota um cara mais depressa que eu. Pode até não ter a mesma perfeição que tenho, mas devido às qualidades que possui, acaba duplicando a eficiência. A falta de força me fez apurar o poder de alavanca. O segredo é conhecer as distâncias e as possibilidades do adversário. Eu conheço o oponente só pelo modo de andar. São sutilezas que adquiri para conhecer o semelhante e para não ser surpreendido.
RFP: O senhor conhece tudo sobre o ser humano?
HG: Há um ditado que diz: “Queres conhecer o próximo, conhece-te a ti mesmo”, e eu me conheço profundamente. Se todos nós somos iguais, o que se passa na cabeça do próximo, se passa na minha. A mulher já não é igual a mim, pois a mu-lher tem outra linha. Mas toda mulher é igual, tudo que se passa na cabeça de uma, passa exatamente pela cabeça da outra. O modo de agir é que varia. Sou o primário que mais escreve, até nisso eu sou iluminado, viu? Proteção tremenda!! Embora não aparente, eu me sinto o pior sujeito que já conheci. Eu não presto e o homem que prestar, já nasceu morto. O que acontece é que eu me porto bem. O ser humano já nasce podre e nós, que não aprovamos o lado negativo que temos, nos portamos bem. Todos temos o anjo e o demônio dentro de nós. Alguns seguem o lado do mal e outros o do bem.
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