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A socialização das crianças através do esporte
Por: Oscar Daniotti
Realmente é de arrepiar. O projeto das vilas olímpicas, do secretário de esportes Ruy Cézar tem o objetivo de socializar crianças carentes através do jiu-jitsu. Fomos à Vila Carlos Castilho (nome dado em homenagem ao goleiro Castilho, nascido em Ramos), no Complexo do Alemão, uma das áreas mais perigosas do subúrbio carioca.
Encontramos, aproximadamente, 3.500 crianças, entre sete e dezessete anos, que participam de diversas modalidades esportivas, tendo a oportunidade de ter uma vida mais digna e com mais alegria.
Quem sabe não estamos de frente com uma questão importantíssima, que seria a de preparar uma nação através do esporte? Um grande meio para o Brasil começar a valorizar o cidadão menos favorecido, respeitando-o e valorizando-o.
O esporte como forma de apoio sócio-educacional proporcionando segurança, carinho e conscientização em diversos aspectos da vida: respeito à hierarquia; imposição de limites; controle da agressividade e principalmente o afastamento do tráfico de drogas, estão entre os principais objetivos do projeto de esporte e lazer criado pela prefeitura, para comunidades carentes.
No Complexo do Alemão, crianças e adolescentes participam desse projeto, que inclui 14 modalidades esportivas como jiu-jitsu; judô; karate; capoeira; futebol; vôlei; natação; basquete; handebol, entre outras.
O esporte, na vila olímpica Carlos Castilho traz também à tona um afastamento de crianças e adolescents no tráfico, já que eles têm alguma ocupação quando não estão estudando. “O projeto incentiva o esporte e o lazer para crianças e adolescentes que não tiveram a oportunidade de vivenciar o que eles vêem na televisão ou nos livros”, afirma a assistente social Mônica Ferreira.
Os professores prestam atenção em todos os aspectos comportamentais dos alunos, não somente no desempenho físico, como também em caso de perceber que aquela criança pode estar com problemas emocionais mais sérios.
O procedimento a ser tomado neste caso, seria o encaminhamento dessa criança ao serviço de psicologia. Os profissionais envolvidos nesse projeto participam de forma interdisciplinar e agem, inclusive, na parte psicológica de cada um.
Muitos pais de família morrem cedo, considerando a vida curta devido ao tipo de trabalho inserido no tráfico de drogas e como conseqüência, as mães precisam trabalhar para sustentar seus filhos. A conclusão que podemos chegar é que crianças e adolescentes ficam entregues à própria sorte. “Muitas mães têm três dias de folga, no mês, para ficar com seus filhos. A criança acaba se sentindo sozinha e sem amor por falta de atenção dos pais” declarou a assistente social Mônica Ferreira.
Estas crianças e adolescentes, devido ao pouco ou quem sabe nenhum diálogo em casa, são, em termos gerais muito mal informadas quanto à própria sexualidade e em relação à questões de higienização. Levando em conta, situações como gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis. Sendo assim, são realizadas palestras com o intuito de esclarecer dúvidas e para levantar questões que possam oriientá-los de alguma forma.
Temos que levar em consideração, ainda, o risco que essas crianças correm de serem agredidas pelos pais, que muitas vezes , através da bebida, acabam reproduzindo a violência que sofrem da sociedade (discriminação social; desigualdade econômica e cultural; baixos salários, quando não o desemprego). Essas crianças, na maioria dos casos, acabam se tornando rebeldes e classificadas como más ou de índole ruim.
O efeito desse ciclo pode ser como o de uma bola de neve. Uma coisa desencadeia a outra na medida em que a violência é respondida com mais violência, tornando-se um problema com conseqüências drásticas e muitas vezes irreversíveis para as suas vidas. “Trabalhamos com uma perspectiva interdisciplinar, que inclui o trabalho de serviço social; psicologia e pedagogia, com o intuito de potencializar o apoio oferecido às crianças”, afirmou a assistente.
Sendo assim, é possível perceber que os benefícios proporcionados pela prática diária de atividades físicas são muitos e os resultados, visíveis. Os pais acabam reconhecendo a mudança de comportamento de seus filhos e percebem o quanto é importante essa interação com os colegas e o valor que tem uma prática social, sem falar na melhora das notas escolares.
Segundo o mestre Martins, professor de capoeira, em apenas duas turmas ele tem em media 250 alunos. “A capoeira desenvolve a capacidade motora de cada um e transmite o conhecimento de uma arte genuinamente brasileira, que nasceu da ânsia por liberdade dos escravos”, declarou o mestre.
Já no karatê, estão inscritos cerca de 350 alunos da comunidade e já houve quem conquistasse títulos como de campeão brasileiro; vice-campeão brasileiro; bi-campeão carioca, além de alunos que já obtiveram diversas medalhas.
A psicóloga Cláudia Alves afirmou que crianças e adolescentes, muitas vezes, procuram o professor (a) como um amigo e até mesmo como uma mãe ou um pai, já que, infelizmente a maioria não tem aconchego familiar. “A realidade deles é a arma; violência; tiroteio. Aque, é justamente o oposto: elas recebem segurança e carinho.
É imprescindiível que elas saibam que têm limites. Nós desenvolvemos um trabalho muito gratificante, principalmente quando se percebe que a resposta é positiva”, declarou a psicóloga.
O professor de jiu-jitsu, Felipão, fala sobre seu trabalho no projeto: “Sinto-me gratificado em ver as crianças felizes e interessadas na prática do esporte. É uma realização profissional, o fato de estar sendo útil para a sociedade”.
Reportagem publicada na edição número 10 do Jornal Faixa Preta.
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